Plantas daninhas resistentes T.4 Ep.2

Podcast 69

Ouvir Podcast

Plantas daninhas resistentes aos herbicidas são um dos maiores desafios que o agricultor enfrenta na produção de milho e grãos de maneira geral, por isso convidamos o Prof. Pedro Christoffoleti para falar sobre o assunto.

Pedro Christoffoleti é pesquisador, consultor e extensionista na área de plantas daninhas, professor aposentado da ESALQ e atualmente possui uma empresa na área de biologia e manejo de plantas daninhas, além de ser uma autoridade no assunto.

O que é uma planta daninha resistente? Como identificar na sua área?   

Antes de começar a falar sobre as dicas de manejo é interessante definir o que é uma planta daninha resistente.

As plantas daninhas são seres biológicos que têm diversidade genética. Toda a população tem um percentual muito pequeno e uma frequência inicial muito pequena de indivíduos resistentes. E o que acontece na prática?

O produtor utiliza a mesma prática de manejo, o mesmo herbicida ano após ano e acaba selecionando os indivíduos de baixa frequência. Isso tem uma implicação prática muito grande, porque a forma como o produtor maneja a planta daninha e utiliza o herbicida são fatores de seleção.

Por isso, precisamos utilizar técnicas e práticas de sustentabilidade de manejo para que as plantas daninhas são sejam selecionadas na cultura.

A cultura do milho, embora essa tendência esteja mudando, é muito cultivada na safrinha, ou segunda cultura. Evidentemente, os investimentos no manejo não são muito grandes e o produtor acaba utilizando apenas o glifosato e, eventualmente, a atrazina como principal herbicida.

A utilização frequente do mesmo herbicida ano após ano tem selecionado resistência e para evitar a seleção é necessário que a prática de manejo seja mudada.

Quando o produtor tem o seu banco de sementes cada vez mais incrementado uma determinada planta, quer dizer que o manejo de plantas daninhas precisa ser mudado e diversificado.

O manejo outonal, ou de entressafra, vem ganhando grande destaque devido ao controle de plantas daninhas resistentes. Como fazer esse manejo adequado na cultura do milho?   

O manejo outonal, de uma forma bem simples, é aquele que ocorre quando o período de pousio é longo. Período de pousio é quando a área é deixada sem a cultura até o próximo plantio. 

É importante destacar para o produtor que precisa fazer um pousio manejado e não abandonar, o que muitas vezes acontece, principalmente depois da cultura do milho pensando no cerrado e no norte do Brasil. 

Então, é necessário manter esse período sem infestação de plantas daninhas. E sabe o que acontece se você deixar a área abandonada? A planta daninha vai produzir sementes e essa é a base da existência da planta daninha. 

Portanto, o manejo outonal é quando você faz um manejo bastante antecipado ao plantio.  

Por exemplo, no norte do Mato Grosso você colhe a soja próximo ao mês de fevereiro e imediatamente você planta o milho, depois você colhe o milho no meio do ano e tem um longo período até o plantio da soja.  

O manejo outonal seriam atitudes de manejo feitas imediatamente após a colheita do milho. Diferente de você fazer esse manejo lá na frente, quando você vai plantar a soja. 

A dificuldade que você no momento do plantio da soja, sem o manejo outonal, é que a planta daninha vai estar grande (como buva e capim-amargoso) e a dificuldade de controle é muito maior com plantas maiores. 

Porém, se você faz um manejo outonal logo após a colheita do milho, essa planta vai estar em fase inicial de desenvolvimento e você vai poder usar um herbicida com mais facilidade de controle e utilizar um residual para evitar que novas populações aconteçam nesse período de pousio, assim o plantio da soja fica muito mais facilitado. 

Então a Santa Dica é trabalhar com a planta daninha já no início do período de pousio. 

Quando nós falamos do Paraná, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso esse pousio ocorre após o milho. Mas quando vamos lá para o Rio Grande do Sul, às vezes ele ocorre após a soja, mas de qualquer forma o conceito é o mesmo. 

Algumas pessoas perguntam: por que o nome é outonal se é feito em agosto, por exemplo? Porque no passado tínhamos uma cultura só, só a soja, não se plantava safrinha, e se plantava a soja no outro ano e na época era no outono esse pousio, hoje não. 

Com o plantio de variedades precoces de soja, que possibilita o plantio do milho após a soja, esse manejo outonal foi para o inverno, mas o nome se manteve.

Em termos de herbicidas no manejo outonal, quais podem ser utilizados?  

No final do ciclo do milho, a planta daninha pode se desenvolver, porque abre no seu período de maturação. Recomendamos que colha o milho, espere alguns dias até aquela restiva de milho assentar e entrar primeiramente com um pós-emergente e a partir daí, idealmente, fazer uma sequencial com o residual depois desse pós-emergente e, depois, entrando um pré-emergente

Falando em termos mais efetivos de manejo se você tiver, por exemplo, uma buva que é resistente ao glifosato, você pode trabalhar com uma mistura de glifosato + 2,4D.

O glifosato vai controlar as demais ervas e o 2,4D vai controlar a buva, porém a condição climática às vezes não é muito boa para o manejo do 2,4D, então essa buva às vezes precisa de uma aplicação sequencial (outra aplicação da sequência).

Assim, depois 10 a 15 dias é importante entrar com um produto dessecante + produto residual.

O produto dessecante, por exemplo, pode ser um produto a base de glufosinato de amônio, um inibidor da PROTOX (como no caso do saflufenacil e carfentrazona, em que você vai complementar a ação do 2,4D que não matou bem a buva) e o produto residual, para colocar junto ao dessecante, que pode ser o flumioxazin, diclosulam e outros residuais que são interessantes.

E no caso do capim-amargoso, que é outra classe de planta daninha, você vai trabalhar primeiro com os inibidores ACCase, como cletodim , haloxyfop junto com o glifosato.

Depois você entra novamente com o produto dessecante, os mesmos mencionados para a buva, junto com o herbicida residual.

Assim, você mantém o período de pousio livre de plantas daninhas e lá na frente fica fácil para você fazer a dessecação e plantio da soja.

Ressalto a importância de plantar no limpo. E por que o plantio no limpo é um termo que a gente usa bastante? Nós importamos esse termo dos Estados Unidos, start clean to stay clean, ou seja, plante no limpo para você ficar no limpo.

Isso é a realidade da lavoura porque se permitirmos que a planta daninha nasça com a cultura temos a competição precoce, porque a planta daninha no seu desenvolvimento é muito rápida.

Então, se você planta a soja no limpo e a planta daninha germina após a germinação da soja, a soja sai na frente. É como se nós fossemos fazer uma competição em que um competidor saísse na frente e tem uma vantagem.

Isso traz um conceito muito importante do uso de herbicidas residuais, que é fundamental no plantio após uma boa dessecação.

E como fazer o manejo de plantas daninhas em pós-emergência de culturas OGM? 

Dentro da cultura, a seletividade dos herbicidas nas culturas convencionais é relativa, ou seja, não é uma seletividade absoluta.

Dentro da cultura, quanto menor a planta daninha estiver, mais fácil o controle. Você precisa de uma dose menor e tem flexibilidade de aplicação do produto, ou seja, não precisa aplicar com urgência para evitar a matocompetição.

Então se tivermos um processo que empurra a germinação da planta daninha mais à frente, mais fácil é para controlar.

Com o evento das culturas transgênicas facilitou muito todos esses processos, porque a planta transgênica tem uma característica de resistência ao herbicida que é absoluta e não causa danos para a cultura.

Falando especificamente do milho, primeiramente tivemos o milho resistente ao glifosato, que foi uma tecnologia fantástica, uma revolução no setor.

Embora o glifosato tenha sido usado com atrazina, começamos a ter problemas com plantas daninhas resistentes ao glifosato, já que como tudo na vida evolui, na agricultura não é diferente, são seres biológicos e evoluíram para isso.

Então temos a buva, o pé-de-galinha, o amargoso, o caruru, o picão preto e também plantas daninhas tolerantes, como a vassourinha de botão, leiteiro, trapoeraba e outras plantas.

Por isso nós precisamos diversificar o manejo. E, para a felicidade dos produtores, foi desenvolvida uma tecnologia com resistência ao glufosinato, como o Viptera 3

Mas o glufosinato tem algumas particularidades no manejo diferente do glifosato, atinge plantas mais novas, não é?  

Sim! Para isso, é necessário entender um pouquinho como que é um mecanismo de ação dos dois produtos, ou seja, como o produto mata a planta daninha.

Embora o glufosinato seja, assim como o glifosato, derivado de um aminoácido e até estrutura molecular seja muito similar dos dois, o mecanismo de morte da planta é completamente diferente.

O glifosato mata a planta daninha através da inibição da síntese de aminoácidos (fenilalanina, tirosina e triptofano).

O glufosinato também inibe a síntese de aminoácido, a glutamina, evitando a incorporação do nitrogênio.

Porém, tem um detalhe que é uma descoberta recente nos últimos 2 anos. O que mata a planta daninha é a produção de radicais livres. E o que é a produção de radicais livres?

É a dessecação da planta, que destrói as membranas celulares, portanto o glufosinato é um produto de contato totalmente diferente do glifosato.

Por isso são necessárias algumas práticas diferenciais para o glufosinato, sendo elas:

  • Aplicação em planta daninha em fases iniciais de crescimento;
  • Não pode ser planta perene, só controla os tecidos que o herbicida atua;
  • Boa cobertura na aplicação, temos que usar maiores volumes, gotas menores e cobrir bem a planta daninha;
  • Não utilizar à noite, ele não funciona;
  • É muito mais dependente da umidade relativa da temperatura;
  • Depende de uma boa aplicação e vigor da planta daninha.

Portanto, enquanto o glifosato a gente pode ser aplicado em uma planta acima do V3, V4, V5, o glufosinato precisa ser aplicado em plantas pequenas e também tem com óleo.

Além disso, o glufosinato tem muito óleo, então no caso do milho a recomendação é que se aplique até V4 ou V5, acima disso pode haver algum prejuízo no desenvolvimento da planta, mas é uma ferramenta fundamental de rotação com glifosato.

Temos apenas 2 plantas daninhas no mundo resistente ao glufosinato, então ao glifosato temos aproximadamente 56, sendo que 6 delas estão no Brasil.

Conclusão    

É sempre importante agir preventivamente, nunca simplifique tanto o seu sistema utilizando apenas o pós-emergente, porque realmente é uma prática muito mais fácil, embora hoje o glifosato também já não é tão barato como era antigamente. 

Mas é muito importante diversificar o sistema, que significa não diversificar apenas o herbicida. Diversificar o sistema é você usar todas as práticas agronômicas importantes que contribuem para o manejo de plantas daninhas. 

Dentre elas, rotação de cultura, cultura de cobertura, o uso da palhada plantio no momento correto, espaçamento adequado, boas práticas agrícolas e, além disso, é muito importante fazer uma boa dessecação, ter um pousio bem planejado, nunca fazer abandono ao invés de pousio, plantar no limpo, utilizar um herbicida residual e trabalhar com diversidade de pós emergente. 

No caso do milho, entra também diversificar glifosato e glufosinato à medida que o desenvolvimento da cultura acontece. 

Seguindo essas dicas o produtor terá mais sustentabilidade no seu sistema de produção e conseguirá expressar todo o potencial produtivo dessa cultura e híbrido.  

Hoje, lutamos para conseguir 5% a mais de produtividade num híbrido e não justifica absolutamente nada perder essa produtividade através da planta da linha resistente que vai roubar os seus recursos e seus investimentos.  

Então, se você é um produtor de milho que visa alta tecnologia e alta produtividade, você precisa trabalhar num excelente manejo, ter o seu milho livre de plantas daninhas através do uso de herbicidas seletivos com o residual para a manutenção de seu potencial produtivo. 

Pedro Christofoletti tem uma assessoria chamada PCJ Consultoria e está à disposição para dúvidas e serviços através do e-mail [email protected]

Santa Dica 

O Santa Dica, podcast de perguntas e respostas da Santa Helena Sementes, convida especialistas experientes do agro para responder dúvidas abordando os temas mais relevantes e debatidos do setor agropecuário, especialmente relacionados às culturas de milho e sorgo.

Veja também os episódios do Santa Dica sobre:
Como fazer o manejo de plantas daninhas no milho safrinha?
Plantas daninhas no sorgo


Inicie uma discussão

Inscreva-se

Posts Recentes

Podcast 69